A própria Graça Machel, assim como outras figuras com influência na Frelimo já se opõem a Nyusi, Presidente, segundo considera o analista Juma Aiuba




Analistas ouvidos pela Lusa consideram que o Comité Central da Frelimo vai realizar-se sob “a sombra” do conflito entre o Presidente da República e da organização, Filipe Nyusi, e Samora Machel Júnior, filho do primeiro Presidente, Samora Machel.

O Comité Central da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo) reúne-se de sexta-feira a domingo na cidade da Matola, província de Maputo, não se conhecendo ainda a agenda do encontro do principal órgão de decisão da organização política no intervalo entre os congressos.



“O presidente do partido [Filipe Nyusi] não vai sossegado ao Comité Central, não vai despreocupado, porque a sua autoridade tem sido severamente desafiada por Samora Machel Júnior”, disse à Lusa Juma Aiuba, analista político residente na cidade de Nampula, norte do país.

O filho do primeiro Presidente acusou Filipe Nyusi de violar os estatutos da Frelimo, exigindo que seja instaurado um processo disciplinar ao presidente do partido.

Para Juma Aiuba, Samora Machel Júnior é apenas o rosto de uma forte corrente no partido que contesta a direção de Filipe Nyusi e que tenta pôr em causa a sua recandidatura à Presidência da República nas eleições gerais deste ano.



“Graça Machel já disse que está incondicionalmente ao lado do filho Samora Machel Júnior e como ela há outras figuras com influência na Frelimo que se opõem a Nyusi”, considerou.

João Pereira, politólogo e docente universitário, considera que a Frelimo se transformou num palco de guerras de egos e de grupos de interesses, perdendo visão e projeto de sociedade.



“As divergências públicas entre Samora Machel Júnior e Filipe Nyusi são a prova de que a Frelimo está cada vez mais centrada em lutas entre pessoas do partido e menos em criar uma visão e um projeto de sociedade”, declarou João Pereira.

Assinalando que o partido no poder foi forjado sempre em contexto de divergências, desde a sua fundação, em 1962, aquele académico frisou que o partido corre o risco de cisão devido à grave crispação.

Adriano Nuvunga, diretor da Associação Desenvolvimento e Sociedade (ADS) e docente de Ciência Política na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), considera que Filipe Nyusi chega ao Comité Central fragilizado pelos ataques à sua autoridade por Samora Machel Júnior e pelas dificuldades que o seu Governo enfrenta.

“O descontentamento de Samora Machel Júnior traduz o descontentamento de um setor muito importante da Frelimo”, defende Adriano Nuvunga.

Por outro lado, prosseguiu, o executivo de Filipe Nyusi enfrenta dificuldades para governar, como se vê nos atrasos no pagamento de salários no Estado.

O diretor-executivo da ADS referiu ainda que o combate contra a corrupção, uma das bandeiras de Filipe Nyusi, é visto com descrédito pela sociedade moçambicana, porque é uma ação seletiva visando ganhos políticos.





Fernando Lima, presidente do grupo de media privado Mediacoop e comentador político, entende que, apesar da oposição à sua autoridade, Filipe Nyusi conserva muito poder na Frelimo, porque conseguiu colocar quadros leais na direção.

“Penso que Filipe Nyusi retém muito poder no partido, porque ou colocou figuras leais em postos de direção ou as figuras que já lá estavam ficaram-lhe leais, à medida que foi consolidando o controlo”, frisou Fernando Lima.

O diferendo entre Filipe Nyusi e Samora Machel Júnior agudizou-se com a decisão da direção da Frelimo de instaurar um processo disciplinar ao filho do falecido Presidente Samora Machel, depois de o político ter decidido concorrer à presidência do município de Maputo, contrariando a decisão do partido de candidatar Eneas Comiche, que venceu a eleição.

LUSA – 02.05.2019

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